Por: Anderson Nascimento
Gonçalo Junior, autor do livro Maria Erótica e o clamor do Sexo
Se hoje, em pleno século 21, o erotismo e a pornografia ainda são discutidos de forma limitada, imagina como deveria ser nos tempos da ditatura militar, com a censura vigiando todos os seus passos? Pois é. O livro Maria Erótica e o Clamor do Sexo, escrito pelo jornalista Gonçalo Junior, mostra como brasileiros enfrentaram as imposições do autoritarismo do regime vigente na época para dar os primeiros passos rumo a liberdade sexual por aqui. Baiano, Junior tem um carinho especial pelos "anos de chumbo", e coleciona mais de mil (literalmente) publicações relacionadas ao tema.
Além do livro, o jornalista acaba de lançar um boxe recheado de Tijuanas Bibles - pequenas publicações com desenhos eróticos - produzidas entre 1930 e 1950, nos Estados Unidos. O Catecismo Americano traz histórias que mostram bem como os yankes tratavam o sexo naquela época. Até personagens de desenho animado, como Branca de Neve e os sete anões, por exemplo, são retratados em cenas "quentes". Veja a entrevista com Gonçalo Junior:
Você faz quadrinhos, desenha?
Já fiz sim, na década de 1980, quando desenhei uma série de personagens sempre no formato de tira. Cheguei até mesmo a colaborar como ilustrador de um caderno de literatura do jornal Gazeta de Sergipe. Mas alguns amigos de Salvador me convenceram que eu levava mais jeito para escrever roteiro e que não tinha nenhum futuro como desenhista de histórias em quadrinhos.
Como foi a pesquisa para montar Maria Erótica?
Longa, muito longa, penosa, difícil e dispendiosa. Afinal, eu morava em Salvador, a dois mil quilômetros de onde estavam as pessoas que tinham trabalhado na Edrel, uma das editoras estudadas. Nos quatro anos de curso de Jornalismo fiz pesquisas e entrevistei pessoas por carta e telefone, ainda não havia internet. Apresentei meu TCC em 1993. Mas achei que poderia render um livro e não parei de juntar material, fazer novas entrevistas e aprimorar o texto. De 2006 a 2010, trabalhei no texto final. Poderia ter publicado antes, mas achei que seria preciso publicar um outro sobre a censura aos quadrinhos antes da ditadura. Daí nasceu A Guerra dos Gibis, que a Companhia das Letras publicou em 2004.
Conte o caso mais curioso que aconteceu durante a montagem do livro.
Creio que uma curiosidade foi minha luta para localizar os personagens. Dei dezenas, centenas de telefonemas a partir de Salvador para São Paulo e Curitiba – onde ficava a editora Grafipar – num exaustivo trabalho de garimpo mesmo. Hoje, com a Internet, você acha uma pessoa pelo Facebook, Twitter, Orkut ou mesmo através do Google. Na época, não tinha nada disso. Era ligar para o 102 e torcer para a telefonista entender direito o nome que você estava procurando.
O quão difícil era difundir material pornográfico no Brasil durante a ditadura militar?
Era complicado porque, além do aspecto moral, num país de maioria católica e com evangélicos fanáticos contra qualquer liberdade sexual, havia o aspecto político, ideológico. Os militares acreditavam que o erotismo – algo bem mais leve que a pornografia, completamente proibida – estava a serviço dos comunistas. Era uma forma de destruírem a família, liderados pela União Soviética. Uma coisa absurda, surreal mesmo.
Na época da ditadura militar, a maioria dos artistas brasileiros estava mais engajada com temas políticos. O que motivou esse boom de quadrinhos eróticos?
Não havia da parte dos artistas de quadrinhos qualquer propósito de derrubar a ditadura. Eles não participavam de partidos políticos, à exceção de Miguel Penteado, que desde a década de 1930 era filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Eram, na verdade, alienados, pessoas que queriam viver de quadrinhos. E quadrinhos feitos no Brasil vendiam muito pouco. Existia, sim, a revolução sexual e a contracultura, e o mundo estava em ebulição desde o surgimento da pílula anti-concepcional, que chegou ao Brasil em 1961. Pregava-se o amor livre e a publicidade estava cada vez mais erotizada. Então, os pequenos editores de São Paulo, como Minami Keizi, da Edrel, viram aí um bom negócio porque havia demanda reprimida e as revistas de temática erótica vendiam bem.
Quem foi Minami Keizi e suas editoras e publicações na consolidação do mercado pornográfico nacional?
Minami foi um pioneiro do erotismo impresso no Brasil e nosso primeiro grande editor porque chegou a ter mais de 40 títulos em circulação entre 1968 e 1974. Depois, criou a revista CINEMA EM CLOSE UP, que se tornou uma espécie de bíblia do cinema da pornochanchada, feito em São Paulo, na Boca do Lixo, entre os anos de 1970 e 1980.
Existe muita diferença entre o conteúdo pornográfico produzido hoje e antigamente, na época da ditadura?
Muita diferença. O que se fazia durante a ditadura em relação ao sexo era muito ingênuo. Não se podia chamar de pornografia, apenas de leve erotismo. Isso acontecia porque só passava pela censura o que obedecesse a uma cartilha contra o nu – que proibia aparecer fotos com os dois seios da garota, e os mamilos tinham de ser apagados com retoque, o que gerava imagens grotescas. Nada de pêlos pubianos e as nádegas só de lado, de perfil. Muitas vezes, os editores resolviam tudo com tarja preta.
Se na época da ditadura havia uma censura pesada com temas eróticos, hoje o cenário é uma liberalização geral de erotismos na mídia. Você acha que existe um ponto de equilíbrio para isso?
Sim. E se observamos bem, não existe uma liberalização do erotismo na mídia como acontecia há vinte anos. Aconteceram exageros, excessos, logo depois do fim da ditadura militar quanto à presença da nudez e do sexo nos meios de entretenimento de massa. Quem viveu na década de 1980 lembra da nudez nas novelas e o sexo explícito mostrado nos bailes de carnaval transmitidos pela TV. Veio uma reação violenta da mídia conservadora, com ameaça de medidas de censura por parte do governo, do Juizado de Menores e do Ministério Público, e as emissoras recuaram. Há ainda muita vigilância, principalmente porque com a Internet isso fugiu um pouco do controle dos pais e cada vez mais surgem pedófilos dispostos a se aproveitarem dessa nova ferramenta de comunicação.
Qual é a semelhança entre a produção brasileira de conteúdo pornográfico na ditadura militar e as Tijuana Bibles?
Nenhuma. São produções bem distintas, de épocas, culturas e lugares distantes. As Tijuanas saíram nos Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940, eram essencialmente pornográficas e vendidas clandestinamente no submundo das grandes cidades. Traziam sátiras escandalosamente pornográficas a personagens de quadrinhos, astros de cinema e do esporte e políticos. Os quadrinhos eróticos produzidos na ditadura pelas editoras Edrel, M&K e outras tinham sim qualidade, havia muito material de valor, com temas urbanos e até certa ousadia ao tratar de aspectos da psicologia e da psiquiatria – num tempo em que nossos artistas estavam acostumados a copiar tudo que vinha dos Estados Unidos.
Qual é a importância das Tijuana Bibles?
Hoje, eu diria que são muito mais como uma preciosa fonte histórica, que dizem muito da vida cultural e sexual dos Estados Unidos na época em que foram produzidas – quando o país vivia seu pior momento econômico e a indústria do entretenimento ganhava dimensões até então inimagináveis.
Como foi fazer a pesquisa deste material?
O levantamento foi complicado porque tudo era sempre comercializado de forma clandestina nos Estados Unidos. Mas uma série de livros nos últimos quinze anos tratou de recuperar parte dessas histórias e eu tive a sorte de comprar um lote de mais de 300 histórias de colecionador nos Estados Unidos por meio da Internet.
E você Gonçalo, gosta de pornografia?
Como qualquer homem, claro que a pornografia me atrai e acho uma tremenda hipocrisia dizer não. Mas não consumo nem sou viciado em pornografia. Por incrível que pareça, depois que o Maria Erótica saiu, ouvi muita piadinha nesse aspecto. Eu juntei mais de cinco mil revistas, só que todas anteriores a 1984, época em que situei meu livro e que o tipo de beleza e sensualidade era bem diferente. A minha curiosidade nessas revistas sempre foi de pesquisador, acredite.
Coleciona revistas pornográficas?
Não coleciono. Só guardei os números da Playboy onde colaborei ou algum com entrevista legal. Mas como sou colecionador de filmes em DVDs, tenho sim alguns filmes de sexo. Não tenho nada contra quem coleciona revistas ou filmes de sexo. Pelo contrário, respeito quem faz isso porque se trata de algo bem íntimo e que a ninguém ofende ou fere. Só acho meio grotesco que existam filmes com zoofilia e pedofilia. É uma bobagem condenar quem consome pornografia. E, muitas vezes, uma tremenda hipocrisia. Afinal, qual é a diferença entre fazer isso e ir atrás de prostitutas?
*Matéria gentilmente cedida pela redação do Portal ObaOba
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